Pinóquio e a barata falante contra as mazelas do mundo

Tenho certeza de que se eu perguntar quem conhece a história de Pinóquio a resposta unânime vai ser sim, todos conhecemos a história do boneco de madeira que desejava se tornar um menino de verdade e se mete em várias encrencas para realizar seu desejo, seja na versão da Disney ou nos livros infantis, a história do boneco encanta e ensina, afinal a mentira tem nariz comprido!

Mas e se eu disser que a história já não é mais a mesma?

Tenho o privilégio de trabalhar com pessoas que assim como eu ainda apreciam bons livros, e foi na encomenda de um dos meus colegas de trabalho que eu vi pela primeira vez, chegou em um pacote grande, e era grande, encadernação capa dura, todo ilustrado e com o inconfundível boneco narigudo na capa, era um livro do Pinóquio! Mas não era um livro comum, o boneco parecia diferente, parecia feito de…metal, não vou negar, meus olhos brilham diante de livros incomuns, e eu com certeza estava diante da mais incomum versão de Pinóquio que já tinha ouvido falar.

 


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Pinóquio – de Winshluss (pseudônimo do artista francês Vincent Paronnaud) é na verdade uma versão em quadrinhos do clássico de Carlo Collodi, aliás, uma versão bem peculiar diga-se de passagem. Gepeto é um inventor casado com uma típica perua-dona-de-casa-megera-pseudo-chique, sua mais nova invenção é Pinóquio, um robô que passa o dia limpando, cozinhando e lavando enquanto a esposa de Gepeto pega um bronze à beira da piscina, sentindo-se muito sozinha ela resolve se divertir com o robô que bem, é um robô narigudo – acho que vocês entenderam o ponto né?

Enquanto Gepeto apresenta o projeto de sua super arma para o exército, sua esposa descobre da maneira mais desagradável que o nariz do robô é na verdade um lança chamas, assustado com o incidente Pinóchio foge e começa a enfrentar o mundo acompanhado apenas por Jiminy, a barata falante-cachaceira-vagabunda-sem-vergonha que após ser demitido e expulso de casa resove se instalar na cabeça de Pinóquio, a partir daí o robô-menino-boneco se depara com um pedófilo, um explorador de mão de obra infantil e até um circo de aberrações, chegando por fim à casa dos sete anões que comprar um coração no mercado negro para poder ressucitar a Branca de neve para fins não muito agradáveis para a garota, enfim, o nosso querido Pinóquio pena para conseguir encontrar um lar onde seja amado e acolhido.


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A versão de Winshluss não é uma HQ politicamente correta, não ensina grandes lições e não tem um roteiro fascinante, aliás, não tem nem diálogos, exceto nos capítulos de Jiminy, afinal ele é a representação da consciência, mas o livro me conquistou, pela originalidade, não é uma história óbvia até porque estamos tão acostumados com a história de Pinóquio que assim que vemos o nome na capa compramos o livro pelo impulso de ter uma nova edição de luxo para a coleção, e quando abrimos nos deparamos com um personagem bem mais complexo que o que Collodi concebeu em 1883, mas nem por isso se torna menos cativante.


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Recomendo que você compre seduzido pela beleza da capa, impressione-se com o enredo e a arte detalhista sem exageros e apaixone-se pelo robô que foi criado pra ser uma arma de guerra mas possui tamanha inocência que diante dos horrores do mundo deseja apenas ter um lar.

Aqui no Brasil a HQ premiada no Festival d’Angoulême de 2009 é publicada pela editora Globo e você encontra no site do Submarino pela bagatela de R$  39,90, segue o link: http://migre.me/eEZoi

 

Esse artigo é uma colaboração de Cal Bueno.